E não dito

outubro 7, 2009

Instantâneo…

Filed under: escritos,escritos do hoje,espanto,inauditos — gleisepc @ 6:44 pm
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Ela desceu do ônibus feliz, com os presentes a cobrir-lhe o rosto. Ele tentou, mas não conseguiu frear.

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janeiro 7, 2008

Abacate…

Filed under: escritos de amor,espanto,inauditos — gleisepc @ 7:01 pm
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Guacamole, era isso! Iria fazer um guacamole: abacate, sal, pimenta, tomate, cebola, alho, limão, o que mais? Será que estava esquecendo algo? Amassar o abacate e misturar com os ingredientes picados. Será? Logo que viu aquele abacate no supermercado lembrou-se dele. Ele, abacate; abacate, ele. Associava a fruta verde e brilhante com ele. Quanto mais brilhante e redonda mais ele. E se estivesse meio molenga? Aí, só a imagem dele feliz vinha-lhe à mente. A polpa levemente gordurosa e doce, o caroço redondo e marrom e a exclamação dele quando a via com o fruto partido nas mãos: Abacate! O guacamole faria com que ele lembrasse daqueles momentos. México, o mar de um verde-azul indescritível, os primeiros tempos compartilhados, a alegria pela manhã. Cumplicidade no abacate. Ele lembraria. Se não lembrasse imediatamente ela iria sugerir, entre um bocado e outro de guacamole. E ele iria amolecer, com certeza. Olharia para ela e veria novamente aquela mulher de 40 anos atrás fazendo careta ao provar pela primeira vez um guacamole. Mas abacate não é doce? Ela era naif, ou melhor, não tinha visto muito do mundo. Hoje, depois dele, com ele, o mundo é o quintal da casa onde os filhos cresceram e por onde eles se espalharam. Era isso! Cada vez mais a certeza a tomava: faria um guacamole para ele! E ele lembraria. Abacate: ele, ele: abacate…

outubro 1, 2007

Sonhando…

Filed under: escritos,escritos do hoje — gleisepc @ 3:56 pm
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Ele pensava nos quarks, e falava também. Grande parte do seu tempo ele passava pensando e falando sobre quarks, partículas, nêutrons, prótons. Ela só guardara que tinha algo a ver com a constituição da matéria, e só. Aquelas contas, explicações, teorias, objeções, pesquisas e gráficos eram coisa complicadíssima que ela jamais dominaria, tinha certeza. Mas ele continuava explicando para ela toda aquela intrincada rede da física de partículas. Dia após dia, ele chegava animado com uma pequeníssima nova descoberta, uma constatação de que estava no caminho certo e, dia após dia, ela balançava a cabeça, sorria esporadicamente, se espantava, ficava admirada, exibia um jogo de emoções sobre algo que nem imaginava. A empolgação dele fazia brotar-lhe uma exclamação seguida sempre da pergunta “mas como?, é possível mesmo? “. Será que era possível? Disto ela não tinha a menor noção, mas não tinha a intenção de decepcioná-lo e seguia ouvindo. E reparou que a cada dia que ele falava algo novo ou que começava a tecer comentários abstratos demais para ela sonhava com luzes. Luzes claras, escuras, coloridas, luzes que brilhavam, dançavam, se admiravam, sorriam, se entristeciam. Luzes formando um túnel para dentro dos quarks, abraçando toda antipartícula. Prótons, nêutrons, léptons envoltos em luzes azuis, em amarelos fortes, em translúcidos verdes. De repente as forças nucleares colapsavam em colorido bem ali no seu colo, um mundo multicolor de matéria viva, pulsátil. Quase podia ver os spins em suas voltas lilases, as cargas elétricas em vermelho e laranja, as massas a se volatizarem em prata. Ela aguardava diariamente ele chegar da rua trazendo novidades, novas cores, novas possibilidades de luz, e ele, feliz, discorria cautelosamente sobre toda a rotina dura das evoluções do modelo padrão e ficava encantado com ela ali tranquila, às vezes feliz, às vezes espantada diante de cada informação nova que ele lhe mostrava. Será que compreendia o alcance daquilo que lhe falava? Era provável que não, ele podia imaginar. De qualquer forma ela seguia com tanta vida cada detalhe – bem mais do que qualquer colega seu de profissão – que ele continuava a falar, chegando até a inventar muita coisa, só para acompanhar-lhe as reações. E ela permanecia ali, a cada novo dia ouvindo-o descrever esse maravilhoso mundo da física de partículas, a possiblidade luminosa do surgimento de um universo em cada quark. A ele cabia a realização dos sonhos de menino no laboratório do colégio, já ela criava na vida rotineira elementos mínimos a dar vida ao seu universo sonhado…

setembro 28, 2007

Acreditar…

Filed under: inauditos — gleisepc @ 3:40 pm
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Hoje ele não acreditaria nos seus olhos mas, da mesma forma, era impossível duvidar. (Plano da cena: as bordas de uma floresta. O campo e algumas árvores jovens. A luz é fraca mas bem clara). Ela estava bem nervosa, aquele tique de apertar os lábios denunciava. Ele já a conhecia fazia algum tempo.
– Eu não sei o que aconteceu, disse olhando para ele já com os olhos perdidos.
Ele tampouco saberia, mas queria acalmá-la e pensou em algo senso-comum.
– As explicações vão aparecer.
Ela sempre confiou nele e desta vez não era diferente. A floresta começava ali bem perto deles e a vontade dela era entrar na mata e desaparecer, talvez com seu consentimento. Ele intuía a necessidade dela de mudança, a situação era mesmo muito difícil de ser esclarecida em pouco tempo, e falou-lhe da cabana, na verdade uma casa bem pobre, mata a dentro. Era tudo que ela queria ouvir. Olhou para ele com alguma esperança no desconhecido, apertou-lhe os ossos da mão e pegou o caminho de muitos anos antes. Pronto, ele pensou, agora posso tentar entender o que se passou. Ela estará bem lá. A mudança não era nem tão grande assim para ela, o cenário era de uma velha história, mas já era um afastamento, o que era bom. Ele voltaria, deixaria as beiras daquela floresta e resolveria tudo. Ela contava com ele para isso, e ele sabia.
O senso-comum invadiu-lhe. A beira de uma floresta qualquer, em um tempo indeterminado, homem e mulher se encontram, se separam, uma cabana…Não poderia haver nada mais óbvio, mais filme noir de segunda categoria. Porque ele precisava daquilo? De onde brotou esta necessidade pelo comum,  medíocre? Deveria deletar, passar uma borracha nesta coisa já sem cabimento nos dias que correm. Mas sua história o dominou, as bordas da floresta brilhavam com uma luz calma, o vento nas árvores, a figura dela desaparecendo. Ele sabia o que lhe esperava na cidade. Ela contava com ele, só ele daria uma solução para isto. Se viu como o mocinho, chapéu, sobretudo; ela indefesa precisava dele. As explicações vão aparecer, só isto lhe veio a mente. Mas que explicações? Que história? Afinal onde ele está? E, pior, quem é ela? Bordas de uma floresta! Era só o que me faltava…

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