E não dito

outubro 1, 2007

Sonhando…

Filed under: escritos,escritos do hoje — gleisepc @ 3:56 pm
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Ele pensava nos quarks, e falava também. Grande parte do seu tempo ele passava pensando e falando sobre quarks, partículas, nêutrons, prótons. Ela só guardara que tinha algo a ver com a constituição da matéria, e só. Aquelas contas, explicações, teorias, objeções, pesquisas e gráficos eram coisa complicadíssima que ela jamais dominaria, tinha certeza. Mas ele continuava explicando para ela toda aquela intrincada rede da física de partículas. Dia após dia, ele chegava animado com uma pequeníssima nova descoberta, uma constatação de que estava no caminho certo e, dia após dia, ela balançava a cabeça, sorria esporadicamente, se espantava, ficava admirada, exibia um jogo de emoções sobre algo que nem imaginava. A empolgação dele fazia brotar-lhe uma exclamação seguida sempre da pergunta “mas como?, é possível mesmo? “. Será que era possível? Disto ela não tinha a menor noção, mas não tinha a intenção de decepcioná-lo e seguia ouvindo. E reparou que a cada dia que ele falava algo novo ou que começava a tecer comentários abstratos demais para ela sonhava com luzes. Luzes claras, escuras, coloridas, luzes que brilhavam, dançavam, se admiravam, sorriam, se entristeciam. Luzes formando um túnel para dentro dos quarks, abraçando toda antipartícula. Prótons, nêutrons, léptons envoltos em luzes azuis, em amarelos fortes, em translúcidos verdes. De repente as forças nucleares colapsavam em colorido bem ali no seu colo, um mundo multicolor de matéria viva, pulsátil. Quase podia ver os spins em suas voltas lilases, as cargas elétricas em vermelho e laranja, as massas a se volatizarem em prata. Ela aguardava diariamente ele chegar da rua trazendo novidades, novas cores, novas possibilidades de luz, e ele, feliz, discorria cautelosamente sobre toda a rotina dura das evoluções do modelo padrão e ficava encantado com ela ali tranquila, às vezes feliz, às vezes espantada diante de cada informação nova que ele lhe mostrava. Será que compreendia o alcance daquilo que lhe falava? Era provável que não, ele podia imaginar. De qualquer forma ela seguia com tanta vida cada detalhe – bem mais do que qualquer colega seu de profissão – que ele continuava a falar, chegando até a inventar muita coisa, só para acompanhar-lhe as reações. E ela permanecia ali, a cada novo dia ouvindo-o descrever esse maravilhoso mundo da física de partículas, a possiblidade luminosa do surgimento de um universo em cada quark. A ele cabia a realização dos sonhos de menino no laboratório do colégio, já ela criava na vida rotineira elementos mínimos a dar vida ao seu universo sonhado…

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