E não dito

outubro 7, 2009

Instantâneo…

Filed under: escritos,escritos do hoje,espanto,inauditos — gleisepc @ 6:44 pm
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Ela desceu do ônibus feliz, com os presentes a cobrir-lhe o rosto. Ele tentou, mas não conseguiu frear.

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setembro 1, 2009

Ainda hoje…

Filed under: escritos do hoje,espanto,inauditos — gleisepc @ 4:17 pm
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Ela andava apressada em seus sapatos novos mas o salto prendeu-se em algo, fazendo-a recuar. Neste instante extraordinário seu mundo veio abaixo. Presa pelo salto da novidade de seus sapatos ela encarou, ainda hoje bem cedo, aquilo que já não era novo em seu mundo. Ainda atada, pensou por um instante  e concluiu que os sapatos valiam mais…

agosto 26, 2008

Sem lugar…

Filed under: espanto,inauditos — gleisepc @ 5:44 pm

Sentou-se cabisbaixo, ombros levantados, tenso. Rígido, pensou em causas, mediu conseqüências. Meteu-se mais fundo no assento. Invadiu sua loucura, deixou-se tomar. Sentiu atordoar-se. Nos ouvidos, zumbidos; na cabeça, um giro. O corpo não era mais seu. Ele lá , e não se possuía. Saía dos sentidos, perdia-se. Não dava mais pelo assunto: primeiro as conseqüências, depois as causas e mais tarde se pensa nisso. Com o campo de visão rebaixado admirava o pequeno em sua rotina e acompanhou. Rastejou de seu rebaixamento e seguiu o movimento marrom, cobre, cor de terra. Queria sua parte naquele todo. Pertencer. Colou o rosto, a cara de bicho faminto no buraco e decidiu-se a descer. Precisava cavar. Corpo rígido, ombros tensos, ele cavava, rasgava, amontoava, esmagava e cansou, tão abrupto quanto começou. Tão sofrido quanto o início. Tão sem ser de ali, como de aqui…

julho 21, 2008

Decidir…

Filed under: espanto,inauditos — gleisepc @ 9:13 pm
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Se tanto não sonhasse acordada. Se daria conta? Não sabe bem, provavelmente não. Vaga sozinha em seus devaneios como se a vida não fosse a dela. Deixa-se por outra, posterga. Prorroga uma agonia vazada por vazios constantes em meio ao caos decisório. Absurdos. Espera por algum ele. Ele que não vem. Ele que não é o certo. Ele que é perfeito demais. Ele que é o de outra. É sempre o ele, desculpa para o adiar ela. Escusa para se eximir da decisão. “Prefiro não fazer”, toma de outro o bordão porque é demais para si…

julho 15, 2008

Ao pó voltarás…

Filed under: espanto,Sem-categoria — gleisepc @ 6:18 pm

Era uma formiga mineral e se questionava em meio a um sonho animal: serei vegetal? Ele ouvira as palavras em uma noite casada por um fluxo de inconsciência, e, de súbito,  tomado por um influxo de puro pânico, frente ao mais absurdo quadro de seu meio social, sentiu que sua voz ia se petrificando, ganhando o peso da necessidade de calar-se. Lembrou-se do homem transformado em inseto e viu-se mineralizar. Cristalizar entre o carvão e o diamante. Pedra. Brutamente solapado pelo obedecer em vez do viver. Seus olhos brilhavam, diamantizavam a situação da simples fala em uma realidade não compartilhada. Não real. Foi perdendo-se em meio à noite para tentar esquecer do travo que atribuiu ao engolido na tentativa de saciar seus intintos de homem. Porque ainda era homem. Homem-mineral, escavado em seu pensar mais verdadeiro devido aos bons modos. Dilapidado no mais valioso. Explorado. Britado. Reduzido a minúsculas pedrinhas imperceptíveis varridas das solas de sapato pelo capacho ao se entrar na casa. Capacho, onde se deixam as sujeiras dos bons lares. E ele que não se transformou em inseto, porque seria banal e previsível, viu-se em novo reino: mineral. Sem fala e sem vontade de falar. Necessariamente mudo. Irmanado à formiga discutida teve suas partes arrancadas e voltou ao pó. Porque ao pó voltarás, ele aprendeu – e não vai mais discutir. Agora ele é mineral…

julho 4, 2008

Filho pródigo…

Filed under: escritos do hoje,espanto,inauditos — gleisepc @ 8:41 pm
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Ele chegou indeciso. Chegar. O que era necessário para compreender o momento? Incertezas neste permanecer. Agora, como? Uma espécie de desespero pelo incerto. Mas isto não é diário? Aprender a conviver com os pés em falso. Manter-se calmo em meio a balbúrdia. Impossibilidades. Não ouvia mais como antes. Antes é algum momento congelado? Onde? Como resgatá-lo? Ao resgate pagará tributo. Só pagará, não há tributos para o incerto. Finalmente em casa, mas afinal onde encontra o lar? Urge encontrar o lar, encontrar o que procura. Aquilo que não sabe bem, mas que cobra-lhe a sanidade. Por quê? Tudo não está. Mesmo a natureza recebeu a mão modificadora e encontra-se em paz. Para tua surpresa, para teu despreparo. Frente ao que não esperavas. Desmontas. Em silêncio. Aos berros. Cobras do mundo. Há que ter um preço! Deves pagar por ti…

janeiro 7, 2008

Abacate…

Filed under: escritos de amor,espanto,inauditos — gleisepc @ 7:01 pm
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Guacamole, era isso! Iria fazer um guacamole: abacate, sal, pimenta, tomate, cebola, alho, limão, o que mais? Será que estava esquecendo algo? Amassar o abacate e misturar com os ingredientes picados. Será? Logo que viu aquele abacate no supermercado lembrou-se dele. Ele, abacate; abacate, ele. Associava a fruta verde e brilhante com ele. Quanto mais brilhante e redonda mais ele. E se estivesse meio molenga? Aí, só a imagem dele feliz vinha-lhe à mente. A polpa levemente gordurosa e doce, o caroço redondo e marrom e a exclamação dele quando a via com o fruto partido nas mãos: Abacate! O guacamole faria com que ele lembrasse daqueles momentos. México, o mar de um verde-azul indescritível, os primeiros tempos compartilhados, a alegria pela manhã. Cumplicidade no abacate. Ele lembraria. Se não lembrasse imediatamente ela iria sugerir, entre um bocado e outro de guacamole. E ele iria amolecer, com certeza. Olharia para ela e veria novamente aquela mulher de 40 anos atrás fazendo careta ao provar pela primeira vez um guacamole. Mas abacate não é doce? Ela era naif, ou melhor, não tinha visto muito do mundo. Hoje, depois dele, com ele, o mundo é o quintal da casa onde os filhos cresceram e por onde eles se espalharam. Era isso! Cada vez mais a certeza a tomava: faria um guacamole para ele! E ele lembraria. Abacate: ele, ele: abacate…

outubro 2, 2007

Como…

Filed under: escritos do hoje,espanto — gleisepc @ 7:04 pm
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Como? E se…estupendo! Nem poderia acreditar no que estava vendo. Simplesmente inacreditável! Ele, uma pessoa simples, sem grandes ambições e isto! Isto acontecendo com ele parecia até delírio, nem sonho, delírio mesmo. Porque, sabe como é, essas coisas só acontecem com aquelas pessoas, aquelas que se vê muito nas capas de revistas, nos noticiários sobre celebridades e ele, ele não era nem uma coisa nem outra, nem gente que ocupa capa de revista, nem celebridade que aparece a toda hora em noticiário. Ele era simplesmente ele, aquele mesmo que sempre foi. Criatura simples, de hábitos modestos criado no subúrbio poluído, estudo mediano em colégio do governo, sempre, desde muito novo – tem até hoje as fotos guardadas. A casa era a dos pais, mas era velha, bem desgastada, só viu pintura por ocasião de dois Natais, nem lembra bem o que estes tinham de diferente dos outros, mas o fato é que nestes a casa ficou cheirando a tinta e a comida da mãe. Nos subúrbios, lá de onde ele viera, era muito comum pintarem as casas para as festas de fim de ano, parece que tinha algo a ver com ano novo vida nova e… casa pintada, sei lá, ele também não sabia muito bem. Do subúrbio foi caminhando pelos bairros da cidade até ir parar na zona norte, ainda não era bom, mas já era grande feito para quem morou onde ele tinha morado por toda infância e adolescência. Precisa ver quando ele encontrava um dos que brincavam nas ruas poluídas com ele, ficavam na maior inveja, “Zona norte é? Caramba você está é bem de vida!” Bem de vida que nada! Deixa eles, é bom mesmo que nem imaginem que ele ainda é ele, porque agora, afinal, aquilo tinha acontecido com ele e ninguém acreditaria mesmo que… bem, deixa como está. Mas e agora? O que será melhor? O que fazer? O que será que aquelas pessoas, aquelas lembra? As famosas, vips, colunáveis, especiais fazem quando algo estupendo acontece? Ah, elas já devem estar tão acostumadas a estas coisas que nem se espantam mais. Aposto que nem ficam na frente do espelho olhando para o reflexo e pensando, “será? eu estou certo? Sou eu?” Sou eu! É, realmente está acontecendo comigo, digo, com ele, ele que sempre andou de trem porque era mais barato, ele que nunca nem pensou em pegar um táxi, ele que passeia pelas ruas da zona sul sonhando, ” isso aqui que é vida! ” Quem sabe agora?, talvez agora seja sua hora. Quem sabe o próximo movimento seja para a zona sul? Imagina a cara dos outros de lá do subúrbio poluído quando esbarrarem com ele na zona sul, “Zona Sul! Caramba!” Zona Sul! Melhor se acalmar, pode ser um engano, é isso, vai ver ele viu errado, tinha tanta vontade que fosse com ele que viu errado. Não custa nada conferir. Ele pega o papel lê de novo e tem certeza, é mesmo com ele, está lá seu nome e para que não sobre qualquer dúvida seu CPF vem do lado. CPF não tem igual, sem homônimos. Não é que é com ele mesmo que está acontecendo! Estupendo! Mas o que se faz agora? Quantas dúvidas! Pergunta para alguém o que fazer? Mas quem? Eles vão ficar verdes de inveja, os de lá, do subúrbio! Vão duvidar lógico, vão fazer pouco, achar que ele está mentindo, mas eles vão ver. Ele vai aparecer. Na capa das revistas? No noticiário? Na área VIP? Já imaginou, ele, logo ele, ele que nem sabe o que fazer numa hora destas na área VIP! Ele na Zona Sul! Ele nas capas de revistas! Ele naquele jornal de famosos! Ele, ele que…

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