E não dito

julho 12, 2009

Só mais um Domingo…

Filed under: escritos de amor — gleisepc @ 4:17 pm

O peito doía-lhe, apertado em meio às angústias e raivas sufocadas. Ela então sentou-se no inferno, com a mão dele indo, rapidamente, para a sua coxa. Sentiu-se bem e pensou, com uma mirada cúmplice: até posso saborear mais uma palavra banal servida como sobremesa…

janeiro 7, 2008

Abacate…

Filed under: escritos de amor,espanto,inauditos — gleisepc @ 7:01 pm
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Guacamole, era isso! Iria fazer um guacamole: abacate, sal, pimenta, tomate, cebola, alho, limão, o que mais? Será que estava esquecendo algo? Amassar o abacate e misturar com os ingredientes picados. Será? Logo que viu aquele abacate no supermercado lembrou-se dele. Ele, abacate; abacate, ele. Associava a fruta verde e brilhante com ele. Quanto mais brilhante e redonda mais ele. E se estivesse meio molenga? Aí, só a imagem dele feliz vinha-lhe à mente. A polpa levemente gordurosa e doce, o caroço redondo e marrom e a exclamação dele quando a via com o fruto partido nas mãos: Abacate! O guacamole faria com que ele lembrasse daqueles momentos. México, o mar de um verde-azul indescritível, os primeiros tempos compartilhados, a alegria pela manhã. Cumplicidade no abacate. Ele lembraria. Se não lembrasse imediatamente ela iria sugerir, entre um bocado e outro de guacamole. E ele iria amolecer, com certeza. Olharia para ela e veria novamente aquela mulher de 40 anos atrás fazendo careta ao provar pela primeira vez um guacamole. Mas abacate não é doce? Ela era naif, ou melhor, não tinha visto muito do mundo. Hoje, depois dele, com ele, o mundo é o quintal da casa onde os filhos cresceram e por onde eles se espalharam. Era isso! Cada vez mais a certeza a tomava: faria um guacamole para ele! E ele lembraria. Abacate: ele, ele: abacate…

dezembro 23, 2007

O vermelho…

Filed under: arte,escritos de amor — gleisepc @ 8:16 pm
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E daí se o vermelho desbotou? Tanto faz que o verde tampouco combine por se complementar. Nada se completaria mesmo nesta composição absurda e, no entanto, ela estava ali presente, em frente ao seu rosto, com direito a lugar de destaque em sua casa, embora ele insistisse em negar-lhe a autoria. A assinatura era dele, sem dúvida, podia reconhecer-lhe os traços, como também identificava a direção dada às tintas; mas algo era de um completo estranhamento no modo como se apresentava emoldurado. Só restava a ele livrar-se daquilo, da medonha obra que via todo o dia. Pois então, mudou-se…

outubro 3, 2007

Se…

Filed under: escritos de amor,inauditos — gleisepc @ 10:21 pm
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Se naquele dia tivesse pego a rua à direita não teria encontrado ela. Não teria vivido a história deles até aqui. Nada dos dias partilhados, as frases bobas, soltas, leves. Os passeios por cada quarteirão compartilhado no olhar, os apertos na mão como sinal de um carro se aproximando ao atravessarem. Nada teria acontecido. Os bolos de aniversário, os presentes de Natal, dia dos namorados, comemorações pelo tempo juntos, nada. As chuvas a dois, o calor do verão naquela cidade, os sustos na volta para a casa de madrugada, os amigos, nada teriam em comum. Mas ele resolveu, naquele exato dia, seguir pela esquina que não estava habituado, como nestes filmes de romance barato. Justo aí ele a encontrou, na esquina do filme barato de romance água com açúcar. Foi neste local comum onde ele acredita que passem milhares de pessoas diariamente que ele a viu pela primeira vez. E foi súbito o modo como tomou a iniciativa de segui-la, pedir o telefone e só depois lembrar de perguntar seu nome. Foi abrupto como se viram sobre a mesma cama e sob as mesmas cobertas, e foi também num romper como ficaram descobertos diante do olhar do outro, cada qual em seu pêlo distinto, de cor distinta, de forma desigual. Tudo se deu por causa daquela curva meio indecisa no dia em que ele pensava um pouco mais sobre o que seria afinal. E tudo foi um monte, um ajuntamento de pés e mãos, de idas e vindas dos novos gêmeos. E hoje esse tudo soa nada. Ele olha para ela e pensa que se não tivesse pego aquela rua, aquela maldita curva indecisa, não teria agora diante de si a figura dupla a lhe tirar a identidade. A lhe roubar a solidão da cama, do atravessar na frente dos carros. Se não fosse pelo filme açucarado e romântico daquela viela estúpida ainda seria ele mesmo. Ele, só. Não se ajuntaria em monturos de pés, não seria tragado por pares de mãos. Poderia se espalhar pelas cobertas como bem quisesse, passar frio e calor onde bem entendesse. Esquecer-se de aniversários, Natais, dias disto ou daquilo. Os amigos não saberiam dela, seriam só dele, seus amigos e só, nada para compartilhar, nada. E, simplesmente, porque ele resolveu pegar aquela esquina, só pelo ato de dobrar à esquerda, contrariando o seu costume de sempre, é que agora havia uma história. A história deles, que ela lhe esfrega na cara toda vez em que ficam descobertos diante do olhar um do outro. Aquela esquina não dobrada à direita e seus dias agora não eram mais dele, eram deles. Naquele dia em que ele… e se… dobrar à direita, sempre à direita…

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