E não dito

janeiro 7, 2008

Abacate…

Filed under: escritos de amor,espanto,inauditos — gleisepc @ 7:01 pm
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Guacamole, era isso! Iria fazer um guacamole: abacate, sal, pimenta, tomate, cebola, alho, limão, o que mais? Será que estava esquecendo algo? Amassar o abacate e misturar com os ingredientes picados. Será? Logo que viu aquele abacate no supermercado lembrou-se dele. Ele, abacate; abacate, ele. Associava a fruta verde e brilhante com ele. Quanto mais brilhante e redonda mais ele. E se estivesse meio molenga? Aí, só a imagem dele feliz vinha-lhe à mente. A polpa levemente gordurosa e doce, o caroço redondo e marrom e a exclamação dele quando a via com o fruto partido nas mãos: Abacate! O guacamole faria com que ele lembrasse daqueles momentos. México, o mar de um verde-azul indescritível, os primeiros tempos compartilhados, a alegria pela manhã. Cumplicidade no abacate. Ele lembraria. Se não lembrasse imediatamente ela iria sugerir, entre um bocado e outro de guacamole. E ele iria amolecer, com certeza. Olharia para ela e veria novamente aquela mulher de 40 anos atrás fazendo careta ao provar pela primeira vez um guacamole. Mas abacate não é doce? Ela era naif, ou melhor, não tinha visto muito do mundo. Hoje, depois dele, com ele, o mundo é o quintal da casa onde os filhos cresceram e por onde eles se espalharam. Era isso! Cada vez mais a certeza a tomava: faria um guacamole para ele! E ele lembraria. Abacate: ele, ele: abacate…

janeiro 6, 2008

Verde…

Filed under: escritos do hoje,inauditos — gleisepc @ 5:43 pm
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Verde. E foi-se, sem mais nenhuma explicação, só o riso na cara. Sorriso. Alegre, que nem fosse criança depois da chuva. Muita terra molhada, aquele cheiro vinha com um conforto de Março. Um verde fim de verão com pontilhados de amarelo. Seurat au naturel. A ida retinha o sentido daquilo que ninguém sequer podia ter imaginado. Uma vida a rascunhar em carvão marcas de mãos grossas. Passadas repletas de um peso consciente, botas velhas e marrons. Borras de vermelho e cheiro de café. Em outra época todos percebiam o comum na vida levada, mas agora só aquele sorriso dado muito ao acaso. O que se passa? Tantos os percursos não pensados por quem tem suas cabeças bem cobertas por tetos firmes e mantém seus pés fincados como raízes ao solo, mãe fecunda de impossibilidades. Pátria, és uma amada egoísta a exigir a monogamia de idéias e escolhas. Vir ver-te, terra de muitas histórias, luz de anteriores olhares. Possíveis ilusões. E ir e ir sem um aonde fixar-se. Gastar as solas, sentir os cheiros. Ele, andando e andando, ia sem explanações, nada de teorias. Aporias. Porias tua alma nesta empreitada? Não porias. Tens um bom teto, um firme chão. Gastar as botas já gastas em uma perspectiva novíssima. E ele deu as costas às portas-sorrisos de enredos conhecidos, aos amigos que lhe eram queridos, aos batentes-molduras da vida que não era obra sua. Riu enquanto subia a estrada. Não era Março, tampouco Junho, mas há muito tempo já deveria ter partido. E assim ocorreu. Um tanto de verde, um toque de terra molhada, um riso solto desenhado pelos sonhos e um todo no quase nada a carregar …

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