E não dito

outubro 3, 2007

Se…

Filed under: escritos de amor,inauditos — gleisepc @ 10:21 pm
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Se naquele dia tivesse pego a rua à direita não teria encontrado ela. Não teria vivido a história deles até aqui. Nada dos dias partilhados, as frases bobas, soltas, leves. Os passeios por cada quarteirão compartilhado no olhar, os apertos na mão como sinal de um carro se aproximando ao atravessarem. Nada teria acontecido. Os bolos de aniversário, os presentes de Natal, dia dos namorados, comemorações pelo tempo juntos, nada. As chuvas a dois, o calor do verão naquela cidade, os sustos na volta para a casa de madrugada, os amigos, nada teriam em comum. Mas ele resolveu, naquele exato dia, seguir pela esquina que não estava habituado, como nestes filmes de romance barato. Justo aí ele a encontrou, na esquina do filme barato de romance água com açúcar. Foi neste local comum onde ele acredita que passem milhares de pessoas diariamente que ele a viu pela primeira vez. E foi súbito o modo como tomou a iniciativa de segui-la, pedir o telefone e só depois lembrar de perguntar seu nome. Foi abrupto como se viram sobre a mesma cama e sob as mesmas cobertas, e foi também num romper como ficaram descobertos diante do olhar do outro, cada qual em seu pêlo distinto, de cor distinta, de forma desigual. Tudo se deu por causa daquela curva meio indecisa no dia em que ele pensava um pouco mais sobre o que seria afinal. E tudo foi um monte, um ajuntamento de pés e mãos, de idas e vindas dos novos gêmeos. E hoje esse tudo soa nada. Ele olha para ela e pensa que se não tivesse pego aquela rua, aquela maldita curva indecisa, não teria agora diante de si a figura dupla a lhe tirar a identidade. A lhe roubar a solidão da cama, do atravessar na frente dos carros. Se não fosse pelo filme açucarado e romântico daquela viela estúpida ainda seria ele mesmo. Ele, só. Não se ajuntaria em monturos de pés, não seria tragado por pares de mãos. Poderia se espalhar pelas cobertas como bem quisesse, passar frio e calor onde bem entendesse. Esquecer-se de aniversários, Natais, dias disto ou daquilo. Os amigos não saberiam dela, seriam só dele, seus amigos e só, nada para compartilhar, nada. E, simplesmente, porque ele resolveu pegar aquela esquina, só pelo ato de dobrar à esquerda, contrariando o seu costume de sempre, é que agora havia uma história. A história deles, que ela lhe esfrega na cara toda vez em que ficam descobertos diante do olhar um do outro. Aquela esquina não dobrada à direita e seus dias agora não eram mais dele, eram deles. Naquele dia em que ele… e se… dobrar à direita, sempre à direita…

outubro 2, 2007

Como…

Filed under: escritos do hoje,espanto — gleisepc @ 7:04 pm
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Como? E se…estupendo! Nem poderia acreditar no que estava vendo. Simplesmente inacreditável! Ele, uma pessoa simples, sem grandes ambições e isto! Isto acontecendo com ele parecia até delírio, nem sonho, delírio mesmo. Porque, sabe como é, essas coisas só acontecem com aquelas pessoas, aquelas que se vê muito nas capas de revistas, nos noticiários sobre celebridades e ele, ele não era nem uma coisa nem outra, nem gente que ocupa capa de revista, nem celebridade que aparece a toda hora em noticiário. Ele era simplesmente ele, aquele mesmo que sempre foi. Criatura simples, de hábitos modestos criado no subúrbio poluído, estudo mediano em colégio do governo, sempre, desde muito novo – tem até hoje as fotos guardadas. A casa era a dos pais, mas era velha, bem desgastada, só viu pintura por ocasião de dois Natais, nem lembra bem o que estes tinham de diferente dos outros, mas o fato é que nestes a casa ficou cheirando a tinta e a comida da mãe. Nos subúrbios, lá de onde ele viera, era muito comum pintarem as casas para as festas de fim de ano, parece que tinha algo a ver com ano novo vida nova e… casa pintada, sei lá, ele também não sabia muito bem. Do subúrbio foi caminhando pelos bairros da cidade até ir parar na zona norte, ainda não era bom, mas já era grande feito para quem morou onde ele tinha morado por toda infância e adolescência. Precisa ver quando ele encontrava um dos que brincavam nas ruas poluídas com ele, ficavam na maior inveja, “Zona norte é? Caramba você está é bem de vida!” Bem de vida que nada! Deixa eles, é bom mesmo que nem imaginem que ele ainda é ele, porque agora, afinal, aquilo tinha acontecido com ele e ninguém acreditaria mesmo que… bem, deixa como está. Mas e agora? O que será melhor? O que fazer? O que será que aquelas pessoas, aquelas lembra? As famosas, vips, colunáveis, especiais fazem quando algo estupendo acontece? Ah, elas já devem estar tão acostumadas a estas coisas que nem se espantam mais. Aposto que nem ficam na frente do espelho olhando para o reflexo e pensando, “será? eu estou certo? Sou eu?” Sou eu! É, realmente está acontecendo comigo, digo, com ele, ele que sempre andou de trem porque era mais barato, ele que nunca nem pensou em pegar um táxi, ele que passeia pelas ruas da zona sul sonhando, ” isso aqui que é vida! ” Quem sabe agora?, talvez agora seja sua hora. Quem sabe o próximo movimento seja para a zona sul? Imagina a cara dos outros de lá do subúrbio poluído quando esbarrarem com ele na zona sul, “Zona Sul! Caramba!” Zona Sul! Melhor se acalmar, pode ser um engano, é isso, vai ver ele viu errado, tinha tanta vontade que fosse com ele que viu errado. Não custa nada conferir. Ele pega o papel lê de novo e tem certeza, é mesmo com ele, está lá seu nome e para que não sobre qualquer dúvida seu CPF vem do lado. CPF não tem igual, sem homônimos. Não é que é com ele mesmo que está acontecendo! Estupendo! Mas o que se faz agora? Quantas dúvidas! Pergunta para alguém o que fazer? Mas quem? Eles vão ficar verdes de inveja, os de lá, do subúrbio! Vão duvidar lógico, vão fazer pouco, achar que ele está mentindo, mas eles vão ver. Ele vai aparecer. Na capa das revistas? No noticiário? Na área VIP? Já imaginou, ele, logo ele, ele que nem sabe o que fazer numa hora destas na área VIP! Ele na Zona Sul! Ele nas capas de revistas! Ele naquele jornal de famosos! Ele, ele que…

outubro 1, 2007

Sonhando…

Filed under: escritos,escritos do hoje — gleisepc @ 3:56 pm
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Ele pensava nos quarks, e falava também. Grande parte do seu tempo ele passava pensando e falando sobre quarks, partículas, nêutrons, prótons. Ela só guardara que tinha algo a ver com a constituição da matéria, e só. Aquelas contas, explicações, teorias, objeções, pesquisas e gráficos eram coisa complicadíssima que ela jamais dominaria, tinha certeza. Mas ele continuava explicando para ela toda aquela intrincada rede da física de partículas. Dia após dia, ele chegava animado com uma pequeníssima nova descoberta, uma constatação de que estava no caminho certo e, dia após dia, ela balançava a cabeça, sorria esporadicamente, se espantava, ficava admirada, exibia um jogo de emoções sobre algo que nem imaginava. A empolgação dele fazia brotar-lhe uma exclamação seguida sempre da pergunta “mas como?, é possível mesmo? “. Será que era possível? Disto ela não tinha a menor noção, mas não tinha a intenção de decepcioná-lo e seguia ouvindo. E reparou que a cada dia que ele falava algo novo ou que começava a tecer comentários abstratos demais para ela sonhava com luzes. Luzes claras, escuras, coloridas, luzes que brilhavam, dançavam, se admiravam, sorriam, se entristeciam. Luzes formando um túnel para dentro dos quarks, abraçando toda antipartícula. Prótons, nêutrons, léptons envoltos em luzes azuis, em amarelos fortes, em translúcidos verdes. De repente as forças nucleares colapsavam em colorido bem ali no seu colo, um mundo multicolor de matéria viva, pulsátil. Quase podia ver os spins em suas voltas lilases, as cargas elétricas em vermelho e laranja, as massas a se volatizarem em prata. Ela aguardava diariamente ele chegar da rua trazendo novidades, novas cores, novas possibilidades de luz, e ele, feliz, discorria cautelosamente sobre toda a rotina dura das evoluções do modelo padrão e ficava encantado com ela ali tranquila, às vezes feliz, às vezes espantada diante de cada informação nova que ele lhe mostrava. Será que compreendia o alcance daquilo que lhe falava? Era provável que não, ele podia imaginar. De qualquer forma ela seguia com tanta vida cada detalhe – bem mais do que qualquer colega seu de profissão – que ele continuava a falar, chegando até a inventar muita coisa, só para acompanhar-lhe as reações. E ela permanecia ali, a cada novo dia ouvindo-o descrever esse maravilhoso mundo da física de partículas, a possiblidade luminosa do surgimento de um universo em cada quark. A ele cabia a realização dos sonhos de menino no laboratório do colégio, já ela criava na vida rotineira elementos mínimos a dar vida ao seu universo sonhado…

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