E não dito

setembro 29, 2007

No ontem…

Filed under: inauditos — gleisepc @ 3:42 pm
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Dado o ontem indiviso ele sonhava. Os sons invadiam a toda hora o seu local de trabalho, era difícil se concentrar, pensar o tema do dia passado. Qual era mesmo? A impossibilidade?, era isso que tinham lhe proposto naquela mesa em uma hora em que nada mais podia ser raciocinado em linha reta? Será? A própria impossibilidade se manifestava então. Engraçado como não se deu conta disto no momento oportuno, poderia ter transformado seu tema em um brilhante discurso para cativar a todos, mas o raciocínio não viera. No momento exato sentiu um vazio enorme, um amargo na boca do estômago. Sacudiu a cabeça para o lado tentando acionar algum argumento (tomara que ninguém tenha percebido o gesto ridículo!), mas nada! Ruborizou, tinha certeza, sentia as bochechas ardendo igual a criança pega em flagrante. Os olhos a inquirir, e aí?, e a impossibilidade? Cadê? Foi ficando mais nervoso, e mais vermelho, começou a suar, beber, a rir sem graça, torcer para que se esquecessem dele. Faltou-lhe o brilhantismo do orador e passou por falsário. Ora, logo ele, o único do grupo a tornar-se um homem de palavra, a ter destaque, a falar pelo país, e diante de velhos rostos, a uma hora destas, não conseguia falar sobre a impossibilidade! O que é isso! Que farsa! Como alguém não consegue falar sobre a impossibilidade! O outro da ponta da mesa começou então um discurso sobre o impossível. É só lembrar das várias impossibilidades, todo mundo já esbarrou em uma ao menos, ao longo da vida. Mas ele ficou mudo, impossibilitado de falar sequer trouxe isto à discussão. Permaneceu sentindo-se um farsante real diante daqueles ali na mesa. Nunca mais redigiria uma linha! Agora ele era uma farsa para si mesmo, ontem foi o marco, o divisor na sua vida, o ponto que deixou bem claro a certeza do embuste. E hoje ele sonhava acordado com o tempo indiviso que dividiu o seu tempo. Os sons invadiam o seu local de trabalho mas ele tinha certeza de que não era por isso que não se concentrava. Ele não poderia se concentrar, tudo que fez até ontem, tudo fora uma ilusão. Alucinação coletiva. Alguém incapaz de discursar sobre a impossibilidade só pode ser um grande embusteiro, isto ficou claro aos amigos e a ele. Não há mais desculpas para o episódio. O tema proposto, a impossibilidade, lhe assaltara de uma vez só, BUM! Agora ele era a própria impossibilidade de continuar, de escrever, de falar, de argumentar qualquer coisa. Estava preso no ontem indiviso, dentro de um possível sonho sobre a impossibilidade…

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setembro 28, 2007

Acreditar…

Filed under: inauditos — gleisepc @ 3:40 pm
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Hoje ele não acreditaria nos seus olhos mas, da mesma forma, era impossível duvidar. (Plano da cena: as bordas de uma floresta. O campo e algumas árvores jovens. A luz é fraca mas bem clara). Ela estava bem nervosa, aquele tique de apertar os lábios denunciava. Ele já a conhecia fazia algum tempo.
– Eu não sei o que aconteceu, disse olhando para ele já com os olhos perdidos.
Ele tampouco saberia, mas queria acalmá-la e pensou em algo senso-comum.
– As explicações vão aparecer.
Ela sempre confiou nele e desta vez não era diferente. A floresta começava ali bem perto deles e a vontade dela era entrar na mata e desaparecer, talvez com seu consentimento. Ele intuía a necessidade dela de mudança, a situação era mesmo muito difícil de ser esclarecida em pouco tempo, e falou-lhe da cabana, na verdade uma casa bem pobre, mata a dentro. Era tudo que ela queria ouvir. Olhou para ele com alguma esperança no desconhecido, apertou-lhe os ossos da mão e pegou o caminho de muitos anos antes. Pronto, ele pensou, agora posso tentar entender o que se passou. Ela estará bem lá. A mudança não era nem tão grande assim para ela, o cenário era de uma velha história, mas já era um afastamento, o que era bom. Ele voltaria, deixaria as beiras daquela floresta e resolveria tudo. Ela contava com ele para isso, e ele sabia.
O senso-comum invadiu-lhe. A beira de uma floresta qualquer, em um tempo indeterminado, homem e mulher se encontram, se separam, uma cabana…Não poderia haver nada mais óbvio, mais filme noir de segunda categoria. Porque ele precisava daquilo? De onde brotou esta necessidade pelo comum,  medíocre? Deveria deletar, passar uma borracha nesta coisa já sem cabimento nos dias que correm. Mas sua história o dominou, as bordas da floresta brilhavam com uma luz calma, o vento nas árvores, a figura dela desaparecendo. Ele sabia o que lhe esperava na cidade. Ela contava com ele, só ele daria uma solução para isto. Se viu como o mocinho, chapéu, sobretudo; ela indefesa precisava dele. As explicações vão aparecer, só isto lhe veio a mente. Mas que explicações? Que história? Afinal onde ele está? E, pior, quem é ela? Bordas de uma floresta! Era só o que me faltava…

setembro 27, 2007

Saberia…

Filed under: escritos do hoje — gleisepc @ 9:14 pm
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Saberia o que aconteceu desde então? Era difícil descrever: a boca seca, coração acelerado, um tremor pelo corpo impossibilitando qualquer defesa. Transformara-se em bicho acuado. Enjaulado em seu próprio mundo. Mundinho de presa fácil, rabo entre as pernas e bico calado. Nenhum sussurro se quer manter-se ainda aqui. Baixar os olhos e continuar seguindo um caminho de possibilidades limitadas por seu temor. A mão não pára de tremer. O nível de descontrole é tamanho que não consegue lembrar o que se deu.
A rua escura, um rosto desconhecido a pedir-lhe informações, sua boa vontade em explicar o rumo e, de repente, a realidade se alterou. Abaixado, na nuca o aço encostado perto demais das lembranças de toda vida, olhos pregados em lugar nenhum. A certeza de não olhar cara a cara quem lhe tirava a dignidade. Vítima. Do seu descontrole, do seu mundo, das desigualdades. Mais um nas estatísticas. Número, seu pavor o transformara em bicho marcado, fizera com que na lembrança carregasse sempre o registro de sua ocorrência, número 350.001. Codificado em algarismos romanos o medo da arena.

A rua foi passando por ele com seus sons abafados, a respiração difícil, o desamparo. Faltou-lhe o tino. Faltaram-lhe as lembranças de quem conhecia, do seu lugar. Esboroou-se toda a lógica do caminho cotidiano e ele simplesmente não saberia dizer como tudo foi acontecendo tão rápido e o tempo lhe pareceu tão lento…

E…

Filed under: inauditos — gleisepc @ 8:28 pm
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Inexorável força invadia o ambiente da tarde em revolta.Inexorável? Que palavra absurda, pura vontade de parecer instruído. De onde vinha esta necessidade de parecer algo além, assemelhar-se a um mundo diferente do seu. Uma força qualquer invadiu a tarde. Um simples aperto no peito, uma dificuldade para respirar, dessas que qualquer pessoa já sentiu em algum momento da vida. E, de repente, o inexorável surgiu, assim, do nada. Inexorável…ficou ressoando no pensamente, inexorável, inexorável. Não adiantava lutar contra, a palavra que queria atirá-lo para um além de si estava ali, e era inexorável, inelutável se preferirem, ela simplesmente não lhe sumia da mente, como um traço da sua vontade de não pertencer. Deixar para trás toda aquela história, a sua, e ser outro. Novos caminhos, distintos fazeres. Mas o inexorável surgia novamente na forma da força contra o peito no meio daquela tarde. Ele olhava para os rostos a sua volta tentando ver se eles imaginavam o que se passava em sua mente, estaria estampado na testa, INEXORÁVEL? Será que aqueles olhares fugidios riam do decalque absurdo que ele pregara no rosto?

Olá mundo!

Filed under: Sem-categoria — gleisepc @ 8:26 pm

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setembro 25, 2007

Filed under: Sem-categoria — gleisepc @ 10:10 pm

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