Sentou-se cabisbaixo, ombros levantados, tenso. Rígido, pensou em causas, mediu conseqüências. Meteu-se mais fundo no assento. Invadiu sua loucura, deixou-se tomar. Sentiu atordoar-se. Nos ouvidos, zumbidos; na cabeça, um giro. O corpo não era mais seu. Ele lá , e não se possuía. Saía dos sentidos, perdia-se. Não dava mais pelo assunto: primeiro as conseqüências, depois as causas e mais tarde se pensa nisso. Com o campo de visão rebaixado admirava o pequeno em sua rotina e acompanhou. Rastejou de seu rebaixamento e seguiu o movimento marrom, cobre, cor de terra. Queria sua parte naquele todo. Pertencer. Colou o rosto, a cara de bicho faminto no buraco e decidiu-se a descer. Precisava cavar. Corpo rígido, ombros tensos, ele cavava, rasgava, amontoava, esmagava e cansou, tão abrupto quanto começou. Tão sofrido quanto o início. Tão sem ser de ali, como de aqui…
Agosto 26, 2008
Julho 21, 2008
Decidir…
Se tanto não sonhasse acordada. Se daria conta? Não sabe bem, provavelmente não. Vaga sozinha em seus devaneios como se a vida não fosse a dela. Deixa-se por outra, posterga. Prorroga uma agonia vazada por vazios constantes em meio ao caos decisório. Absurdos. Espera por algum ele. Ele que não vem. Ele que não é o certo. Ele que é perfeito demais. Ele que é o de outra. É sempre o ele, desculpa para o adiar ela. Escusa para se eximir da decisão. “Prefiro não fazer”, toma de outro o bordão porque é demais para si…
Julho 15, 2008
Ao pó voltarás…
Era uma formiga mineral e se questionava em meio a um sonho animal: serei vegetal? Ele ouvira as palavras em uma noite casada por um fluxo de inconsciência, e, de súbito, tomado por um influxo de puro pânico, frente ao mais absurdo quadro de seu meio social, sentiu que sua voz ia se petrificando, ganhando o peso da necessidade de calar-se. Lembrou-se do homem transformado em inseto e viu-se mineralizar. Cristalizar entre o carvão e o diamante. Pedra. Brutamente solapado pelo obedecer em vez do viver. Seus olhos brilhavam, diamantizavam a situação da simples fala em uma realidade não compartilhada. Não real. Foi perdendo-se em meio à noite para tentar esquecer do travo que atribuiu ao engolido na tentativa de saciar seus intintos de homem. Porque ainda era homem. Homem-mineral, escavado em seu pensar mais verdadeiro devido aos bons modos. Dilapidado no mais valioso. Explorado. Britado. Reduzido a minúsculas pedrinhas imperceptíveis varridas das solas de sapato pelo capacho ao se entrar na casa. Capacho, onde se deixam as sujeiras dos bons lares. E ele que não se transformou em inseto, porque seria banal e previsível, viu-se em novo reino: mineral. Sem fala e sem vontade de falar. Necessariamente mudo. Irmanado à formiga discutida teve suas partes arrancadas e voltou ao pó. Porque ao pó voltarás, ele aprendeu – e não vai mais discutir. Agora ele é mineral…
Julho 4, 2008
Filho pródigo…
Ele chegou indeciso. Chegar. O que era necessário para compreender o momento? Incertezas neste permanecer. Agora, como? Uma espécie de desespero pelo incerto. Mas isto não é diário? Aprender a conviver com os pés em falso. Manter-se calmo em meio a balbúrdia. Impossibilidades. Não ouvia mais como antes. Antes é algum momento congelado? Onde? Como resgatá-lo? Ao resgate pagará tributo. Só pagará, não há tributos para o incerto. Finalmente em casa, mas afinal onde encontra o lar? Urge encontrar o lar, encontrar o que procura. Aquilo que não sabe bem, mas que cobra-lhe a sanidade. Por quê? Tudo não está. Mesmo a natureza recebeu a mão modificadora e encontra-se em paz. Para tua surpresa, para teu despreparo. Frente ao que não esperavas. Desmontas. Em silêncio. Aos berros. Cobras do mundo. Há que ter um preço! Deves pagar por ti…
Maio 16, 2008
Ópera-bufa
E saberia acreditar no ontem como se o vermelho, verde abacate, fosse a cor local?…
Fosse a cor local…
Se esperasse seria assim. Não saberia mais quando tudo isto deixaria de ser um tormento. Novela de enredo barato na qual ele mesmo criara os personagens, os locais. As cores locais. Como técnica recém-descoberta, como o não dominado e mal recebido pelos espectadores. Representação onde ele tentava fixar, com o desespero da ciência do tempo, aquela determinada luz e seus coloridos. Pausa. Uma pausa. Duas pausas. Silêncio total frente ao que não lhe dizia mais respeito. O movimento ou a espera? Aguardar: por uma luz mais viva, um domínio maior sobre sua arte. Que arte? Sobre o que falas? Arte do mover-se como se parado fosse seu estado natural? Arte da espera? Da sapiência das cores locais? Tentavas estrangular as cores locais no bidimensional. Esta a origem do tormento. A necessidade de fixar, prender, agarrar junto aos olhos, à qualquer parte do corpo, aquilo que inapreensível se dá. Tormento novelesco, barato e vazio. Como muitos por aí a fora. Como as vidas caminhantes do lado de fora da sua. Como as vidas dos outros. Esperar pelo outro, que não tem tempo para viver-lhe os enredos de baixo orçamento. Sonho pobre, de conformista, no movimento imperceptível do auto-engano. À ação opunha vista fraca, pouco alcance de horizonte. Uma vontade por planícies muradas. Fraco querer a debater-se com o inexorável da natureza. Inimigo cruel, desigual. Sua fraqueza, mais forte do que nunca, arrancava-lhe a possibilidade de ar ao mover-se. Assim seria então. Não havia o condicional. Esperaria. Aguardaria calmo, imerso na novela criada através do movimento alheio e que não mais lhe dizia respeito. Assim mesmo ele esperaria pelo futuro pretérito de seu destino e se atirava ao trabalho de escrever dia a dia a história sabendo-lhe o final. Uma pausa. Duas. O som martelado por dois dedos pintando em desespero o pano seco a sugar-lhe as sombras das cores locais…
Janeiro 7, 2008
Abacate…
Guacamole, era isso! Iria fazer um guacamole: abacate, sal, pimenta, tomate, cebola, alho, limão, o que mais? Será que estava esquecendo algo? Amassar o abacate e misturar com os ingredientes picados. Será? Logo que viu aquele abacate no supermercado lembrou-se dele. Ele, abacate; abacate, ele. Associava a fruta verde e brilhante com ele. Quanto mais brilhante e redonda mais ele. E se estivesse meio molenga? Aí, só a imagem dele feliz vinha-lhe à mente. A polpa levemente gordurosa e doce, o caroço redondo e marrom e a exclamação dele quando a via com o fruto partido nas mãos: Abacate! O guacamole faria com que ele lembrasse daqueles momentos. México, o mar de um verde-azul indescritível, os primeiros tempos compartilhados, a alegria pela manhã. Cumplicidade no abacate. Ele lembraria. Se não lembrasse imediatamente ela iria sugerir, entre um bocado e outro de guacamole. E ele iria amolecer, com certeza. Olharia para ela e veria novamente aquela mulher de 40 anos atrás fazendo careta ao provar pela primeira vez um guacamole. Mas abacate não é doce? Ela era naif, ou melhor, não tinha visto muito do mundo. Hoje, depois dele, com ele, o mundo é o quintal da casa onde os filhos cresceram e por onde eles se espalharam. Era isso! Cada vez mais a certeza a tomava: faria um guacamole para ele! E ele lembraria. Abacate: ele, ele: abacate…
Janeiro 6, 2008
Verde…
Verde. E foi-se, sem mais nenhuma explicação, só o riso na cara. Sorriso. Alegre, que nem fosse criança depois da chuva. Muita terra molhada, aquele cheiro vinha com um conforto de Março. Um verde fim de verão com pontilhados de amarelo. Seurat au naturel. A ida retinha o sentido daquilo que ninguém sequer podia ter imaginado. Uma vida a rascunhar em carvão marcas de mãos grossas. Passadas repletas de um peso consciente, botas velhas e marrons. Borras de vermelho e cheiro de café. Em outra época todos percebiam o comum na vida levada, mas agora só aquele sorriso dado muito ao acaso. O que se passa? Tantos os percursos não pensados por quem tem suas cabeças bem cobertas por tetos firmes e mantém seus pés fincados como raízes ao solo, mãe fecunda de impossibilidades. Pátria, és uma amada egoísta a exigir a monogamia de idéias e escolhas. Vir ver-te, terra de muitas histórias, luz de anteriores olhares. Possíveis ilusões. E ir e ir sem um aonde fixar-se. Gastar as solas, sentir os cheiros. Ele, andando e andando, ia sem explanações, nada de teorias. Aporias. Porias tua alma nesta empreitada? Não porias. Tens um bom teto, um firme chão. Gastar as botas já gastas em uma perspectiva novíssima. E ele deu as costas às portas-sorrisos de enredos conhecidos, aos amigos que lhe eram queridos, aos batentes-molduras da vida que não era obra sua. Riu enquanto subia a estrada. Não era Março, tampouco Junho, mas há muito tempo já deveria ter partido. E assim ocorreu. Um tanto de verde, um toque de terra molhada, um riso solto desenhado pelos sonhos e um todo no quase nada a carregar …
Dezembro 23, 2007
O vermelho…
E daí se o vermelho desbotou? Tanto faz que o verde tampouco combine por se complementar. Nada se completaria mesmo nesta composição absurda e, no entanto, ela estava ali presente, em frente ao seu rosto, com direito a lugar de destaque em sua casa, embora ele insistisse em negar-lhe a autoria. A assinatura era dele, sem dúvida, podia reconhecer-lhe os traços, como também identificava a direção dada às tintas; mas algo era de um completo estranhamento no modo como se apresentava emoldurado. Só restava a ele livrar-se daquilo, da medonha obra que via todo o dia. Pois então, mudou-se…
Outubro 3, 2007
Se…
Se naquele dia tivesse pego a rua à direita não teria encontrado ela. Não teria vivido a história deles até aqui. Nada dos dias partilhados, as frases bobas, soltas, leves. Os passeios por cada quarteirão compartilhado no olhar, os apertos na mão como sinal de um carro se aproximando ao atravessarem. Nada teria acontecido. Os bolos de aniversário, os presentes de Natal, dia dos namorados, comemorações pelo tempo juntos, nada. As chuvas a dois, o calor do verão naquela cidade, os sustos na volta para a casa de madrugada, os amigos, nada teriam em comum. Mas ele resolveu, naquele exato dia, seguir pela esquina que não estava habituado, como nestes filmes de romance barato. Justo aí ele a encontrou, na esquina do filme barato de romance água com açúcar. Foi neste local comum onde ele acredita que passem milhares de pessoas diariamente que ele a viu pela primeira vez. E foi súbito o modo como tomou a iniciativa de segui-la, pedir o telefone e só depois lembrar de perguntar seu nome. Foi abrupto como se viram sobre a mesma cama e sob as mesmas cobertas, e foi também num romper como ficaram descobertos diante do olhar do outro, cada qual em seu pêlo distinto, de cor distinta, de forma desigual. Tudo se deu por causa daquela curva meio indecisa no dia em que ele pensava um pouco mais sobre o que seria afinal. E tudo foi um monte, um ajuntamento de pés e mãos, de idas e vindas dos novos gêmeos. E hoje esse tudo soa nada. Ele olha para ela e pensa que se não tivesse pego aquela rua, aquela maldita curva indecisa, não teria agora diante de si a figura dupla a lhe tirar a identidade. A lhe roubar a solidão da cama, do atravessar na frente dos carros. Se não fosse pelo filme açucarado e romântico daquela viela estúpida ainda seria ele mesmo. Ele, só. Não se ajuntaria em monturos de pés, não seria tragado por pares de mãos. Poderia se espalhar pelas cobertas como bem quisesse, passar frio e calor onde bem entendesse. Esquecer-se de aniversários, Natais, dias disto ou daquilo. Os amigos não saberiam dela, seriam só dele, seus amigos e só, nada para compartilhar, nada. E, simplesmente, porque ele resolveu pegar aquela esquina, só pelo ato de dobrar à esquerda, contrariando o seu costume de sempre, é que agora havia uma história. A história deles, que ela lhe esfrega na cara toda vez em que ficam descobertos diante do olhar um do outro. Aquela esquina não dobrada à direita e seus dias agora não eram mais dele, eram deles. Naquele dia em que ele… e se… dobrar à direita, sempre à direita…