Ela sorria e olhava ele falando, e falando… Já quase não o ouvia, mas consentia e sorria. Sabia que ele falava sem o mesmo ânimo. Os passeios conjuntos se transformaram em rotina automatizada, mas sobre isso ele não falava. Ela tampouco o fazia, e preferia sustentar o sorriso enquanto pensava nos por quês daqueles momentos. O mais doloroso era saber que ele sabia, mas não falava e, no entanto, era ele quem mais tinha assunto nessas horas. Como ele podia sustentar tal situação?, ela pensava; mas deixou soar o sorriso pelo ar.
Ele falava e era tão automático, que nem parecia ser ele mesmo a trazer a variedade de temas para aquela mesa, naquele lugar. Ele tinha medo que ela lhe perguntasse sobre qual o assunto ele estava falando, porque não tinha o menor controle sobre o que dizia. Era quase um zumbi de si mesmo naquela rotina que inventaram, não lembra quando. E quanto mais ele falava, mais sabia que ela estava ali, mas não o ouvia. Ela sorria, como sempre, mas agora, mantinha-se ausente. Enquanto ele falava, e por que falava, não conseguia parar de pensar nela ali na sua frente, consentindo e sorrindo. Doloroso era saber que ela também sabia, mas, ainda assim, insistia em consentir e sorrir. Como ela podia manter o sorriso em tal situação?, ele se punha a pensar; mas não conseguia parar de falar.
Júlia olhava a xícara de café já sem nenhuma vontade. Ela gostava tanto de café, mas o deixara esfriar. Distraída com o casal da mesa ao lado, e sua felicidade cúmplice tão despudoradamente visível, pensava em como trazer o gosto pelo café de volta à sua, uma vez mais, solitária rotina…